Capolavoro, sim!!

Capolavoro, sim. Não no sentido de obra-prima, mas de prima obra. Este blog é destinado a todos aqueles que queiram trocar idéias sobre a vida, as leis, viagens e sentimentos.
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terça-feira, 15 de abril de 2014

Livro pra quê?



          Quantos livros você leu nos últimos 30 dias? Se consumiu ao menos 1 volume,  você faz parte dos 30 por cento de brasileiros que conseguem começar e terminar uma obra em um mês. O dado é a da pesquisa  Target Group Index , do Ibope Media,  realizada  entre julho de 2011 e agosto e 2012, em  9 capitais, entre elas Salvador, e cidades do interior de São Paulo e regiões sul e sudeste.  

30% dos brasileiros leêm 1 livro por mês


Os mais otimistas podem avaliar como um bom número para um país em desenvolvimento ou emergente, como preferir. Mas veja o outro lado: 70 por cento dos brasileiros não leram sequer 1 livro  em um mês, nem mesmo um técnico ou didático. Os motivos são muitos: dificuldade de acesso, preço, falta de aproximação e até analfabetismo, seja ele de fato ou funcional.





          Quando se fala em economia, menos pode ser mais. Esse é um mercado com grande potencial.  Hoje 500 editoras nacionais, internacionais e mistas atuam por aqui.Nos últimos 20 anos houve a profissionalização do setor,  com a ampliação de grandes companhias e a adesão de algumas editoras a novos formatos, como o e-book. Esse é um segmento econômico que pouco pode reclamar do “custo Brasil” , é isento de impostos desde 2004 e quando da sanção da lei acreditava-se na redução de 10 por cento no preço de cada volume. Por outro lado, há o custo da obra, da pesquisa, do autor, sem contar o papel,  na maioria dos casos ainda importado. Nas “melhores” livrarias,  encontradas em ruas e shoppings, os chamados best-sellers são o carro chefe, assim como livros didáticos. Um clássico da literatura internacional, nem sempre é localizado, principalmente nas grandes redes. Em uma oportunidade, procurei um livro de Honoré de Balzac, qualquer um , na Saraiva do shopping Barra e não havia nenhum volumezinho sequer. O vendedor se surpreendeu com o meu susto e disse “ Ah, esse tipo de obra é pouco procurado”.

           Voltando ao mercado editorial, o preço pode mesmo ser um impeditivo a boa parte da população. Um best-seller médio, chega a custar 50 reais, quase 7 por cento do salário mínimo em vigor no país. Com a cesta básica beirando os R$ 270,00 na capital baiana, não é mesmo fácil. Ok, vc deve pensar, mas e as bibliotecas. Há dificuldades aqui também . Poucos profissionais, prédios defasados e ainda um distanciamento do público em geral. Chega a ser inquietante  perceber que muitos, a exemplo do que ocorre em museus, têm medo de entrar em uma biblioteca grandiosa como a dos Barris. E quem entra sabe o que procurar ? Aonde estão aqueles velhos bibliotecários da minha época de infância, que  tinham tempo e disposição para ajudar, orientar, sugerir ? Poucos ainda sobrevivem.




As feiras

           As feiras literárias, que tomaram corpo no sudeste do país, também já ganham espaço na Bahia. A Flica, Feira Literária de Cachoeira, encheu a cidade com saberes literários e até protesto contra uma blogueira cubana fez parte do repertório dos que amam ou gostariam de amar os livros. Esse ano, em Salvador, tem Flipelô, que pretende espalhar pelos cantos e recantos do Pelourinho a arte de escrever, volumes, mesas com autores... a possibilidade de quem nunca tocou em uma obra de pegá-la, senti-la, apreciá-la. E há ainda os vale-livros nas bienais, mas por aqui, os investimentos são menores que no sul e sudeste. Em 2010, Rio de Janeiro e são Paulo investiram R$ 12 mi cada um , contra R$ 250 mil na Bahia, garante a Câmara Brasileira do Livro. Eu aliás sou fã do livro impresso. Gosto do cheiro e do toque. De abraça-lo, comer em cima dele enquanto leio e até adormecer sonhando com a viagem que faço, tendo o autor como guia .Ainda são poucos os que têm esse privilégio.
Existem tentativas de aproximação que vão  longe das já tradicionais bienais e feiras, há cidades, como São Paulo, em livros podem ser comprados no Metrô. A preços módicos, vc coloca o dinheiro em uma máquina, e sai com uma história todinha para degustar. Outra possibilidade está na palma das mãos e na ponta dos como dizem os enlouquecidos por tecnologia. Os e-books, bem mais baratos que os volumes convencionais, podem ser o caminho para os jovens que vivem conectados e de olho no celular.

Alternativas para os novos

          Do outro lado, há também as pequenas editoras, afinal, quem se ocupa dos  novos autores  que não têm a sorte de uma Elisabeth Gilbert, aquela de Comer, Rezar, amar  de tornar-se  conhecida no primeiro escrito. Está certo que ela penou para terminar a história, mas quando o fez, ganhou fãs em todo o mundo.A auto-publicação já ocupa 10 % do segmento do mercado editorial nacional. Na Bahia, o mais recente movimento  foi a criação do Selo João Ubaldo ribeiro, através do qual a fundação Gregório de Matos se comprometeu a selecionar a publicar obras de autores soteropolitanos todos os anos.

A tecnologia também pode colaborar com os que chegam agora ao mercado.Há plataformas gratuitas como  Kindle Direct Publishing, em que vc mesmo  produz  e formata o volume e aplicativos para a publicação de histórias, até mesmo em capítulos. O wattpad é um deles. Basta um cadastro e  vc tem acesso a inúmeros volumes, em várias linguas e pode também começar a construir seu próprio texto. Esse app costuma ser usado por quem quer testar os dotes de autor, já  que permite comentários , votos em textos e até mensagens privadas com recomendação de leitores. Perfeita interação entre quem escreve  e quem consome, quem gera, transforma e cria algo novo. Nada mais parecido com o ciclo da cultura.



          E nesse ciclo virtuoso de transmissão de conhecimento, gestos singelos podem tirar da inércia aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de experimentar um mundo novo em uma viagem literária. A campanha "Esqueça um Livro" está presente em várias cidades do país e prega o desapego literário... se você já leu, compartilhe. Sob  mote "quem encontra, leva pra casa e depois esquece também. Assim o conhecimento se espalha", milhares de volumes já foram esquecidos em bancos de praças, ônibus , metrôs e outros locais públicos como forma de proporcionar mais acesso à cultura e incentivar a leitura. No entanto, não podemos perder de vista que só pode desgustá-la quem sabe desvendar os símbolos, quem sabe ler. 
8,7% dos brasileiros não sabem ler
          Em janeiro deste ano, a Unesco, braço das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, divulgou um relatório em que o Brasil aparece  como o  8º lugar em analfabetismo entre 150 países avaliados. Segundo dados do IBGE colhidos em 2012, 8,7% dos brasileiros com mais de 15 anos não sabem ler, ou seja, cerca de 13,2 milhões de jovens e adultos estão alijados do contato com o conhecimento através das letras. Para a UNESCO  o problema se relaciona diretamente à má qualidade da educação e a falta de atrativos nas aulas, além do treinamento pouco qualificado dos professores
       O acesso à cultura, especialmente à literária, não está apenas ligado  à questão econômica, mas, sim, aos problemas sócio-econômicos. Uma criança que não aprende a ler e escrever na escola, que se torna um adolescente analfabeto funcional ou chega à idade adulta sem conseguir interpretar um texto, dificilmente verá atrativos em um volume, não raro terá resistência a absorver cultura através das letras. Se o exemplo dos pais é fundamental no amor pelas letras e, se essas são um dos pilares da transmissão cultural,  uma base adequada, de experimentação e contato  é a coluna mestra para a disseminação da cultura através dos livros.